Identificação histórica e figuras ilustres da freguesia

 

Placa foreira na Rua da Rosa A freguesia de Santa Catarina, instituída em 9 de Outubro de 1559 a partir das freguesias do Loreto - depois Encarnação - e dos Mártires, implantava-se ao longo da encosta que desce do Principe Real à Boavista. O seu território era dos mais extensos com parte urbana e parte arrabaldina sendo, até meados dos século XX, das mais populosas da cidade de Lisboa. A sua história esteve originalmente ligada à cidade dos descobrimentos e caracterizou-se sempre por ser uma freguesia diversificada nas sua dimensões histórica, patrimonial e sociológica bem como na sua realidade cultural, tendo o "aristocrático" e o "popular" coexistido ao longo dos tempos.

Os limites administrativos da freguesia sofreram sucessivas alterações, a última das quais, efectuada em 1959, e que fixa os limites actuais, se pode considerar aberrante, e que urge corrigir, uma vez que provocou uma descoincidência entre a delimitação de carácter administrativo e uma configuração específica da natureza urbanística e sociocultural, sendo a zona que dá o nome à freguesia muito restrita no contexto dessa delimitação administrativa, a qual foi excluídora de locais desde sempre "emblemáticos" da freguesia como o Miradouro do Alto de Santa Catarina, de onde se desfruta uma das mais belas vistas sobre o Tejo e a margem sul desse rio e onde, segundo a tradição, se apreciava a movimentação de navios nos séculos XVI, XVII e XVIII.

Maria Amália Vaz de Carvalho Muitas das figuras ligadas à vida cultural e política da cidade e do país viveram no antigo e actual território desta freguesia, tais como André Valente, Sebastião José de Carvalho e Melo, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, Gonçalves Crespo, Luís de Almeida e Albuquerque, Abel Manta, António Quadros, etc. Também na freguesia de Santa Catarina nasceu (1847, R. de S. Boaventura), viveu e faleceu uma grande mulher, eminente escritora e poetisa, grande lutadora pela causa da "condição feminina", Maria Amália Vaz de Carvalho, segundo a qual" A mulher é um poder. É preciso aproveitá-la na obra comum da civilização. É necessário antes de tudo transformar a educação da mulher. A primeira coisa que a mulher não aprendeu e que devia aprender, é a pensar. Dominar o seu destino, modificá-lo quando seja conveniente, eis uma faculdade que só podem ter as que raciocinam e as que sabem".

Miradouro de Santa Catarina Actualmente a freguesia de Santa Catarina é como se fosse um pequeno país, com uma área montanhosa ainda dentro do núcleo "mais" Bairro Alto, que se vai espraiando, em declive para sul, para o Tejo, e para poente, na direcção de S. Bento, cortada por um eixo, a Calçada do Combro, suposta via principal no início da ocupação urbana e onde se situa a maior densidade de edifícios apalaçados, de grande porte e beleza arquitectónica.
A esta geografia orográfica, corresponde também outra geografia humana, social e também urbanística. Enquanto na zona norte a vida fervilha, com as pequenas lojas porta sim porta não, com as oficinas artesanais, tipografias de longa tradição ramificações dos jornais implantados, tascas de comer e conviver, com a população modesta mas laboriosa, nas zonas em declive voltadas ao Tejo o movimento diminui, e as habitações são de maior porte para usufruirem a vista do Tejo, com o Miradouro de Santa Catarina como remate. É toda ela uma freguesia em mutação, polo de novas actividades, que vão descaracterizando porque não se inserem na sua tradição, gerando conflitos de relacionamento entre habitantes e fruidores do meio popular. Que o bom senso compatibilize e estabilize e, portanto, harmonize a relação, no bom sentido cultural, com novas formas de estar e viver numa sociedade equilibrada.

 

III Centenário do Nascimento do Marquês de Pombal

Para azar de uns e sorte de outros, a 13 de Maio de 1699 nasceu Sebastião José de Carvalho e Melo, que a história consagrou sob o título de Marquês de Pombal. O acontecimento deu-se nas casas familiares na então Rua Formosa, hoje do Século, na freguesia das Mercês, em cuja igreja, agora transformada em esquadra de polícia, foi baptizado em simples cerimónia familiar. Lá estaria o avô homónimo, velho morgado da Rua Formosa, o pai, Manuel de Carvalho e Ataíde, capitão de cavalos e delirante genealogista, a mãe, D. Teresa de Mendonça, filha do Almada, morgado dos Olivais, e, sobretudo, seu tio, Paulo de Carvalho e Ataíde, arcipreste da patriarcal e figura política influente, que muito terá contribuído para a carreira lenta mas segura do jovem que rapidamente deu de si sinais promissores.

Pouco se sabe da sua juventude, envolta na lenda de um rapaz corpulento e azougado, o Carvalhão de alcunha, que não hesitou em raptar uma jovem viúva aristocrata para mostrar, desde logo, que não o assustavam nem a rigidez da sólida arrumação social vigente, nem a prossecução dos gestos necessários para levar a bom termo as ideias que se lhe metiam na cabeça. Decerto, desses anos lhe ficou um conhecimento seguro da sua cidade e talvez a consciência de que muito haveria nela para mudar.

Com os horizontes polidos pelas estadias londrina e vienense, Sebastião José regressa a Lisboa para ascender ao poder em 1750, na idade já madura de um cinquentão que temperara a ousadia juvenil com o cálculo bem medido de quem sabe coser as linhas para atingir o que quer. Bafejado pela natureza, soube utilizar a tragédia do terramoto de 1755 como alavanca de um poder que permitiu reformular estruturas mentais, pela transformação radical do cenário urbano em que elas se passariam a movimentar. A nova cidade, arrumada e esclarecida, que pôs de pé, criando as condições para que uma brilhante escola de engenheiros desse a medida de si mesma, é um marco revolucionário na concepção do espaço urbano lisboeta, que ainda hoje nos condiciona dia-a-dia os movimentos e nos define os parâmetros da própria ideia de cidade. Se outras realizações não se lhe devessem, bastaria esta revolução citadina para que Lisboa saúde esse primeiro choro de há exactamente trezentos anos, início de uma caminhada difícil e contraditória que ainda se repercute nas paredes consistentes que em boa hora o seu sonho ergueu.

José Sarmento, Agenda Cultural de Lisboa - CML (Maio de 1999).

 



Página principal